Como o seguro pode ser aliado na inclusão financeira da população?
- 02/10/2025
O mercado de seguros no Brasil tem apresentado crescimento consistente e está cada vez mais preparado para ampliar seu papel social, sobretudo em um país marcado pela informalidade e desigualdade. As seguradoras têm a oportunidade de contribuir significativamente para a inclusão financeira e a proteção de milhões de brasileiros, ao desenvolver soluções acessíveis e adaptadas às diversas realidades da população.
Para Ivani Andrade, superintendente de Sustentabilidade do Grupo Bradesco Seguros, “o setor segurador precisa democratizar o acesso aos produtos de seguro para ampliar sua atuação como instrumento de inclusão financeira e proteção social”. Ela ressalta que hoje, apenas 17% da população possui seguro de vida e menos de 8% da área plantada no país está coberta por seguro rural”. Esses dados, segundo Ivani, “mostram um grande déficit de proteção e revelam o potencial de crescimento e a responsabilidade do setor em alcançar mais pessoas”. Por isso, ela considera essencial simplificar as ofertas, modernizar os canais de atendimento e investir continuamente em educação financeira.
André Cordeiro, superintendente de estratégia de mercado, qualidade e ESG da Tokio Marine, concorda que um dos principais desafios do nosso setor é a disseminação da cultura do seguro no Brasil, que precisa ser mais valorizada e fortalecida. “O seguro deve ser visto como um investimento estratégico — essencial para proteger as finanças e garantir a continuidade segura e eficiente dos negócios”. Cordeiro destaca que o mercado segurador tem um papel fundamental na promoção da inclusão financeira e proteção social, especialmente em um país com grande diversidade socioeconômica como o Brasil.
Maurício Masferrer, diretor-executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil, reforça que o mercado de seguros, por sua própria essência, já é uma ferramenta de inclusão financeira e de proteção social. Para ele, o seguro “oferece estabilidade diante de imprevistos e reduz vulnerabilidades tanto para famílias quanto para empresas”. Para ampliar esse papel, Masferrer acredita ser “fundamental torná-lo mais acessível, com produtos que cheguem a diferentes camadas da população e que atendam necessidades específicas de forma simples e transparente”.
Políticas Públicas
O setor de seguros possui papel estratégico para ampliar o acesso da população de baixa renda a serviços que tragam proteção. Patrícia Coimbra, diretora de Gente e Cultura da Porto, destaca que “uma das formas é investir na oferta e configuração dos produtos de entrada, focados na inclusão securitária, não somente relacionados a seguro de automóvel, mas também seguro de vida, de residência, serviços de saúde e financeiros”.
Luciano Calheiros, vice-presidente Comercial, Marketing e Experiência do Cliente da AXA, acrescenta que o seguro deve se conectar às agendas de políticas públicas em áreas como proteção social, microcrédito e educação financeira, atuando como complemento estratégico do Estado. “Essa colaboração pode ocorrer por meio da criação de produtos simples, acessíveis e de fácil contratação, distribuídos em parceria com governos e instituições locais”, diz Calheiros. Além disso, o setor contribui para a agenda de sustentabilidade do país ao oferecer soluções para riscos climáticos, especialmente em prevenção, análise e gestão de risco, apoiando a transição energética. Calheiros ressalta que dessa forma, o seguro protege populações vulneráveis de eventos extremos, amplia o acesso a mecanismos de resiliência financeira e fortalece a rede de proteção social da população.
Pedro Farme, CEO da corretora de resseguros Guy Carpenter, destaca o papel relevante das Parcerias Público-Privadas (PPP) no setor. “Ao combinar o caráter assistencialista dos governos com a gestão eficiente do mercado, as PPPs criam mecanismos que levam proteção às pessoas, mitigam riscos, garantem cobertura em eventos climáticos e limitam a exposição do Estado, assegurando recursos para transação, impactos fiscais e incentivos adicionais”.
Inovação
A adoção de tecnologias no setor de seguros tem avançado de forma consistente, aumentando sua atratividade operacional e financeira. Inovações como inteligência artificial, análise preditiva de riscos, seguros paramétricos e modelos personalizados baseados em dados promovem ganhos em eficiência, controle e previsibilidade — elementos valorizados por investidores institucionais e de longo prazo. Com uma penetração de seguros baixa no Brasil (6,3% do PIB), o potencial de crescimento é grande, atraindo capital.
No Grupo Bradesco Seguros, Ivani Andrade ressalta que “os princípios ambientais, sociais e de governança (ASG) são considerados tanto nos investimentos do grupo quanto na gestão dos recursos dos clientes que investem em previdência”. Ela destaca que “o portfólio inclui três previdências com a sigla ESG no nome, refletindo o compromisso de direcionar recursos para empresas responsáveis socioambientalmente e em governança”.
Maurício Masferrer explica que, na Allianz, o NatCat Pricing Excellence utiliza modelagem avançada e dados georreferenciados para estimar com maior precisão as perdas causadas por desastres naturais. Essa iniciativa fortalece a sustentabilidade do portfólio e amplia o leque de coberturas para riscos antes mais desafiadores, como enchentes. Ele ainda destaca a ferramenta CARES (Climate Adaptation and Resilience Services), que “auxilia empresas na compreensão e gestão de riscos climáticos, oferecendo mapas interativos, relatórios, pontuações de risco para identificar localidades vulneráveis, recursos de autoavaliação e consultoria personalizada”. Segundo Masferrer, “o CARES é fundamental para proteger ativos e garantir a continuidade dos negócios diante das mudanças climáticas”.
André Cordeiro relata que a Tokio Marine é pioneira no uso de inteligência artificial no mercado brasileiro, com um comitê multidisciplinar chamado Tokio Einstein, que reúne mais de 55 colaboradores para discutir ferramentas e modelos de IA aplicados em diversas áreas, governados pela área de TI e suportados pelo programa Tokio Inova. Ele destaca que “a companhia usa inteligência artificial para analisar a concentração histórica de eventos climáticos em regiões específicas e para apoiar a equipe de sinistros, agilizando a abertura e o pagamento de indenizações a segurados afetados”.
Patrícia Coimbra ressalta que “a inovação é chave para atrair novos investidores” e destaca que a Porto apresenta soluções tecnológicas como o uso de inteligência artificial para otimizar processos, além da Oxigênio Aceleradora, que apoia startups e impulsiona a inovação no ecossistema. Ela afirma que a integração de canais digitais com atendimento humano, chamada ‘Humanicanalidade’, eleva a experiência do cliente e fortalece a posição da Porto no mercado, atraindo investidores e clientes. Em 2024, a Porto investiu mais de R$ 2 milhões em iniciativas de inteligência artificial generativa (GenAI) aplicadas à jornada do cliente para maior eficiência.
Luciano Calheiros, da AXA, reforça que o setor tem desempenhado um papel cada vez mais proativo e integrado à vida da população, com o desenvolvimento de seguros inclusivos e sob demanda, de contratação 100% digital e coberturas modulares. “A estratégia de levar o seguro ao cliente por meio de parcerias com varejistas, fintechs e cooperativas amplia a base, gera escala e oferece dados valiosos para o negócio”.
Além disso, o setor se posiciona como líder na agenda da sustentabilidade. Calheiros exemplifica que “a AXA tem como pilar estratégico o AXA Verde, que foca em soluções de seguro para fortalecer cadeias de negócios sustentáveis, atuando como fiador de projetos ambientais, o que demonstra um novo potencial de negócio e reafirma a relevância do setor para o futuro do país”.
Para Pedro Farme, entender e modelar riscos nunca foi tão importante. Ele afirma que “o Brasil entra pela primeira vez no mapa dos territórios com bons modelos estatísticos e climáticos para gestão de grandes riscos agregados”, o que traz a confiança necessária para que os investidores comprometam recursos, considerando risco e retorno. Essa evolução abre caminho para um aumento significativo da captação de recursos no país, fortalecendo o mercado de seguros e seu papel social e econômico.
Sobre a Casa do Seguro
A inclusão financeira será um dos eixos abordados na “Casa do Seguro”, iniciativa inédita da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras) para inserir o setor nas discussões da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em Belém (PA).
Além da programação de conteúdo, a “Casa do Seguro” promoverá iniciativas de responsabilidade social, prestigiando a economia e a mão de obra locais. O projeto é ambientalmente responsável e foi desenvolvido dentro dos conceitos de evento neutro e resíduo zero, prevendo ainda uso eficiente de água e energia.
Com o apoio de seus empoderadores –Allianz, AXA, BB Seguros, Bradesco Seguros, Caixa Seguridade, MAPFRE, Marsh McLennan, Porto, Prudential e Tokio Marine – a Casa funcionará em 1,6 mil m² de área útil, acomodando plenária com 100 lugares, seis salas de reunião, business lounges, estúdio para gravação de podcasts, sala de imprensa, espaço de convivência e área para exposições artísticas e apresentações culturais.