Como as finanças sustentáveis podem transformar o setor de seguros no Brasil?

O setor de seguros no Brazil passa por uma transformação significativa ao incorporar os critérios ESG — que significam Ambiental, Social e Governança — como estratégia para construir um futuro baseado nos princípios da economia verde. Por meio das finanças sustentáveis, as empresas do segmento estão adaptando seus produtos, modelos de precificação e operações para mitigar os riscos climáticos e sociais, ao mesmo tempo em que fomentam a inovação e ampliam o acesso à proteção para diferentes públicos.

A “Casa do Seguro”, iniciativa coordenada pela CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), destaca essa integração como fundamental para fortalecer o papel do setor na construção de uma economia resiliente. Diversos líderes do mercado têm mostrado na prática como suas companhias incorporam os critérios ESG em suas estratégias e operações, revelando um esforço que vai desde a redução das emissões de gases de efeito estufa até o desenvolvimento de seguros que promovem a inclusão social e apoiam a transição energética.

Os critérios ESG funcionam como eixo central na estratégia da Brasilseg, diz Raquel Gaudêncio, superintendente-executiva de Planejamento Estratégico, VMO, Governança Corporativa e Sustentabilidade. “Temos trabalhado para integrar os critérios ESG de forma transversal em todas as decisões do negócio. Isso significa olhar para os impactos ambientais, sociais e de governança desde a definição de políticas e investimentos até o desenvolvimento de produtos e processos”, afirma. Raquel destaca a governança de riscos climáticos e sociais alinhada a padrões rigorosos, como “IFRS S1 e S2, TCFD e Circular SUSEP nº 666/2022,” que proporcionam transparência e aderência às melhores práticas internacionais. A executiva também cita a inovação em produtos focados na sustentabilidade, como “o projeto de seguro vinculado à agricultura regenerativa, que usa dados científicos e critérios de sustentabilidade para avaliar riscos e oferecer condições mais justas aos produtores.”

No Grupo Bradesco Seguros, as práticas ESG também estão incorporadas nas decisões estratégicas e na criação de produtos. “Isso se reflete na oferta de previdências com selo ESG, seguros econômicos direcionados à inclusão financeira e assistências com foco ambiental”, diz Valdirene Soares Secato, diretora de Recursos Humanos, Ouvidoria e Sustentabilidade da seguradora. Ela enfatiza a adaptação às soluções feitas para cobrir os impactos das mudanças climáticas, com coberturas específicas para eventos extremos. “Nosso objetivo é ampliar o acesso à proteção e contribuir para um futuro mais sustentável”, afirma.

Na AXA Brasil, o ESG evoluiu de um tema paralelo para uma prioridade estratégica. “Publicamos recentemente nosso primeiro Relatório de Sustentabilidade, seguindo as diretrizes do GRI [Global Reporting Initiative, organização internacional que desenvolve os padrões de relatórios de sustentabilidade] e em conformidade com a Circular 666 da Susep, demonstrando nosso compromisso e transparência”, diz Alexandre Campos, vice-presidente de RH, Jurídico, Compliance e ASG da AXA. Campos aponta iniciativas concretas, como a redução de 13% nas emissões de gases de efeito estufa, resultado obtido pela migração da frota corporativa para veículos híbridos e o aumento da eficiência energética. Além disso, o executivo da AXA explica que os produtos e serviços são continuamente adaptados para fortalecer cadeias de negócios sustentáveis ​​e apoiar a transição climática em políticas de governança, inclusão e diversidade estratégicas para o engajamento social e representatividade interna.

Seguindo essa tendência global, a Marsh McLennan tem critérios ESG integrados por meio de metas claras e soluções inovadoras. “Nosso processo de Gerenciamento de Riscos Empresariais (ERM) inclui a discussão sobre riscos ESG e planos de resiliência para eventos climáticos”, conta Marcos Mello, diretor da Marsh Advisory. Em 2024, a companhia firmou compromissos ambiciosos com a “Science Based Targets Initiative” (SBTi), emissões líquidas zero até 2050 e uma redução significativa no curto prazo. Entre as ações estão a minimização do consumo de água e a promoção da reciclagem. Mello comenta ainda a parceria para ajudar clientes do setor de transporte a compensar suas emissões de carbono com base na metodologia de créditos calculados a partir de trajetória de trajetos e meios de transporte. Essas ferramentas, combinadas com soluções de segurança, permitem a construção de planos de resiliência climática robustos e fundamentados em dados.

Outro exemplo vem da Tokio Marine, que reforça a sua agenda ESG com o selo “Tokio ESG” e iniciativas alinhadas às diretrizes globais do grupo. “Desenvolvemos produtos que apoiam a economia descarbonizada e adotamos uma postura restritiva contra projetos com impactos socioambientais negativos”, afirma André Cordeiro, superintendente de estratégia de mercado, qualidade e ESG da companhia. Ele destaca ainda o lançamento do Tokio Marine GX (TMGX), uma plataforma global dedicada a seguros e gestão de riscos para negócios focados na transição energética.

Precificação em transformação

A incorporação dos critérios ESG alterou os modelos de precificação do setor, que agora incorporam os riscos climáticos e sociais de forma mais sofisticada. No Grupo Bradesco Seguros, o uso de inteligência de dados e ferramentas preditivas auxiliam na antecipação de cenários e na adequação dos preços, sem limitar o acesso à proteção.

A Porto também intensificou a avaliação dos riscos ambientais e sociais, principalmente para seguros de carros e residências. “Os riscos como enchentes e vendas vão aumentando, o que afeta diretamente o custo dos seguros. Por isso, usamos modelos que compartilham o clima e a localização dos clientes para definir preços justos”, explica Viviane, representante da empresa. Ela destaca que o Porto foi pioneira entre as seguranças brasileiras a medir as emissões de carbono ligadas às seguranças, usando uma metodologia internacional chamada PCAF (Partnership for Carbon Accounting Financials). Isso ajuda a entender melhor como os riscos ambientais impactam os ativos segurados.

Alexandre Campos, da Axa, destaca que a ESG não se restringe à precificação, mas abrange todo o ciclo do seguro — da subscrição à gestão de sinistros. “Consideramos impactos de eventos climáticos extremos, vulnerabilidades sociais e riscos emergentes, como cibersegurança, para precificar de forma justa e incentivar a mitigação por parte dos clientes.” Ele também aponta práticas seguras na regulação de sinistros, como a preferência por reparos e o uso de peças recondicionadas.

Para Cordeiro, da Tokio Marine, a busca por uma visão integrada amplia o conceito tradicional de risco ao contemplar fatores ambientais, sociais e de governança, que influenciam não apenas a precificação, mas também a estruturação das coberturas. “O seguro deixa de ser apenas proteção financeira para se tornar um estimulador de práticas responsáveis ​​e alinhadas com a construção de um futuro sustentável.”

Finanças sustentáveis

As finanças sustentáveis ​​são um motor importante para a inovação no setor de seguros. “Criamos serviços que ajudam a reduzir riscos e investimentos em ativos mais resistentes, o que melhoram o retorno financeiro e ajuda o meio ambiente”, destaca Alexandre Campos.

Valdirene lembra que, no Grupo Bradesco, a estratégia ESG tem levado ao desenvolvimento de produtos com impacto social e ambiental positivo, como seguros voltados à inclusão e previdência privada sustentável. “É um caminho que une inovação, inclusão e responsabilidade.”

Marcos Mello reforça que o pensamento sustentável vai além do lucro. “Estamos abrindo espaço para investimentos em energia limpa, tecnologias verdes e infraestrutura resistente, criando oportunidades no mercado de créditos de carbono e seguros especializados.” Ele aponta que o grande desafio é ampliar o alcance dos seguros para comunidades vulneráveis ​​e infraestrutura pública, um mercado que pode gerar até R$ 6 bilhões em prêmios adicionais e melhorar o uso dos recursos públicos.

André Cordeiro destaca que, com o uso de dados e uma visão preventiva, o seguro pode ser um agente de transformação para uma economia mais justa e sustentável.

Viviane, da Porto, lembra que a empresa tem metas ambiciosas: alcançar R$ 13 bilhões em produtos sustentáveis ​​até 2030, com foco na inovação, na resiliência climática e na inclusão. “Fomos pioneiros em aplicar a metodologia PCAF para medir emissões e aproveitar oportunidades na transição para uma economia de baixo carbono.”

Para Raquel Gaudêncio, da Brasilseg, as finanças sustentáveis representam uma das maiores alavancas para inovação no setor de seguros, “ao direcionar capital e tecnologia para atividades de baixo carbono, regenerativas e socialmente responsáveis.”

Ela cita exemplos práticos desse processo ligados à agricultura. “Projetos como o Zarc Níveis de Manejo, em parceria com o MAPA [Ministério da Agricultura e Pecuária] e a Embrapa, e o Consórcio Reg.IA, criado pela Agtec Produzindo Certo, utilizam dados científicos e indicadores de sustentabilidade para calibrar riscos e estimular práticas agrícolas resilientes.”

Sobre a Casa do Seguro

A Casa do Seguro está situada em local muito próximo ao espaço oficial da COP30. Além da programação de conteúdo, promoverá iniciativas de responsabilidade social, prestigiando a economia e a mão de obra locais. O projeto é ambientalmente responsável e foi desenvolvido dentro dos conceitos de evento neutro e resíduo zero, prevendo ainda uso eficiente de água e energia.

Com o apoio de seus empoderadores –Allianz, AXA, BB Seguros, Bradesco Seguros, Caixa Seguridade, MAPFRE, Marsh McLennan, Porto, Prudential and Tokio Marine –  a Casa funcionará em 1,6 mil m² de área útil, acomodando plenária com 100 lugares, seis salas de reunião, business lounges, estúdio para gravação de podcasts, sala de imprensa, espaço de convivência e área para exposições artísticas e apresentações culturais. 

COMPARTILHE